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Tuesday, November 2, 2010

Quando a América temeu os católicos

Será que algum dia irão escrever um artigo entitulado "Quando o Brasil temeu os católicos"?

Boa leitura!

Tradução: Sandra Katzman

No início de 1900, muitos americanos ficaram genuinamente assustados pela percepção deles de uma ameaça religiosa vinda da Igreja Católica [Apostólica] Romana e por suspeitas de intenções imperialistas de seu líder, o Papa. Ele estaria tramando a derrubada dos Estados Unidos, advertiam os temerosos, a fim de "tornar a América Católica." Seus soldados, dezenas de milhares de católicos que se chamavam os Cavaleiros de Colombo, estariam ocupados armazenando armas e munições nos porões de suas igrejas, todos em preparação para o dia, quando seu líder papista daria o sinal para a insurreição violenta começar.

Os portadores de tais crenças não eram apenas alguns malucos extremos seguramente superados em número pelos seus vizinhos de olhos claros religiosamente tolerantes. Ao contrário, textos abertamente anti-católicos muito populares vertiam das bancas de todo o país, em jornais como o Jeffersonian do senador Tom Watson, de Atlanta e o Menace de Aurora, Missouri, cujas assinaturas superavam as dos maiores jornais de Nova York e Chicago juntos. As eleições foram ganhas com base nas promessas de afastar os católicos dos cargos públicos de confiança. Apenas "os americanos verdadeiros" deviam ocupar essas posições, anunciavam, não os católicos, que eram leais primeiro ao seu líder religioso em Roma.

Deputados e senadores estaduais foram também persuadidos a tomar medidas contra a detectada ameaça, refletindo assim o medo anti-católico em suas "leis de inspecção de conventos." Essas leis, pouco lembradas hoje, autorizavam as buscas sem mandado em edifícios Católicos - conventos, mosteiros, igrejas e casas paroquiais – em procura de armas e mulheres jovens supostamente seduzidas a entrarem para um convento de freiras através de mentiras católicas.

O temor religioso nesta escala teve consequências fatais. Oitenta e nove anos atrás, em Birmingham, Alabama, em meio a essa atmosfera anti-católica burbulhante, o padre James E. Coyle foi brutalmente assassinado. Coyle, natural da Irlanda, foi enviado aos Estados Unidos para iniciar o seu sacerdócio. Quando ele se atreveu a levantar-se em defesa de sua fé, agentes federais advertiram o bispo de Mobile sobre ameaças de morte `a vida de Coyle e promessas de queimar sua igreja em Birmingham.

Tais ameaças não eram sem valor. Durante este mesmo período, a popularidade da Ku Klux Klan explodiu depois de se redefinir como uma organização "patriótica" fraterna dedicada a salvaguardar os Estados Unidos contra a ameaça de católicos, judeus e imigrantes que inundavam o país em números sem precedentes. Este novo Klan atraiu alguns dos "melhores homens da cidade" - médicos, advogados, juízes, policiais, até mesmo os clérigos.

Em 11 de agosto de 1921, um desses homens - um pastor metodista, o reverendo Edwin R. Stephenson – foi com uma arma carregada para a varanda da casa de Coyle e matou-o em frente a uma rua cheia de testemunhas. Cerca de uma hora antes, o padre tinha aparentemente cometido o ato imperdoável de celebrar o matrimônio da filha de 18 anos de Stephenson com um católico praticante com descendência de Porto Rico, e cuja profissão era aplicar papel de parede.

A KKK reagiu rapidamente a esta iniciativa, levantando fundos para a defesa de Stephenson e contratação de seu principal advogado, um jovem futuro juiz da Suprema Corte, Hugo Black. Black, esperava-se, poderia convencer um júri do Sul a ver Stephenson como um herói da comunidade ao invés de um assassino intolerante. Os artigos publicados no Menace durante todo o julgamento batiam no mesmo tema, colocando uma das preocupações mais fortes da época contra a própria justiça. Você pode adivinhar o resultado.

Stephenson saiu do tribunal um homem livre, e ele nunca nem mesmo se desculpou. Black se juntou ao Klan 18 meses depois e, com seu apoio, foi eleito para o Senado dos EUA. Só anos mais tarde, depois de um repórter revelar sua adesão quando ele se preparava para assumir sua cadeira no Supremo Tribunal Federal, ele calmamente afirmou que não partilhava mais das crenças do Klan e não era mais um membro. Black sobreviveu ao escândalo que se seguiu.

Na época, esses homens não se consideram fanáticos religiosos. Eles acreditavam que eram patriotas, bons pais e filhos, maridos e irmãos protegendo suas famílias e a nação contra uma ameaça externa que eles temiam ter como intenção a sua destruição.

A febre anti-católica dos anos 1920 não era uma história regional, era uma história americana, se estendendo ao norte, leste e oeste, caracterizando os católicos como cidadãos de segunda classe por décadas. E continuou por mais de 40 anos, só terminando quando o candidato presidencial [católico] John F. Kennedy se sentiu obrigado a dizer diretamente que sua lealdade era para com os Estados Unidos, e não para com o Papa. Se as conseqüências tivessem sido menos terríveis e se não houvessem tantos sinais de que não aprendemos com nossos erros, hoje, a pior consequência do fervor anti-católico poderia ser apenas vergonha.

Sharon Davies é professora da Universidade Estadual de Ohio Moritz Faculdade de Direito e autora de "Road Rising:. Um conto verdadeiro de amor, raça e religião na América" Ela escreveu esse artigo para o Los Angeles Times (McClatchy-Tribune).

Leia o original em inglês aqui.

Monday, October 25, 2010

Blogueiros católicos procuram purgar dissidentes

Faz tempo que não coloco nada aqui. Estamos em época de eleição e todo mudo está ocupado com o futuro do nosso país, não é para menos. Diante do episódio recente dos panfletos da CNBB e da suposta traição de Gabriel Chalita, achei este artigo bem propício. Boa leitura.



Por ZOLL RACHEL
The Associated Press Associated Press
tradução livre Sandra Katzman

Segunda-feira 25 de outubro de 2010, 12:05

-- Existe pressão para mudar a Igreja Católica Romana na América, mas não vem dos suspeitos de costume. Uma nova geração de conservadores teológicos tomou conta de blogs e YouTube para dizer a igreja não é suficientemente católica.

Enfurecidos com a dissidência que eles acreditam ter corrido solta por décadas, e sem medo de dizer isso na mais perfeita linguagem, estes ativistas estão dando nome aos bois e deixando a igreja inquieta.

-Na Arquidiocese de Boston, os paroquianos estão dissecando o trabalho de um conselheiro do cardeal procurando por qualquer dica de influência marxista.

-Os blogueiros estão vasculhando dados financeiros de campanha para expor os funcionários de agências católicas que fizeram doações a políticos que apoiam o direito ao aborto.

-RealCatholicTV.com, cujo estúdio fica no subúrbio de Detroit, está a caça de freiras, padres e bispos "traidores" em toda a igreja americana.

"Estamos empenhados em uma caça às bruxas tanto quanto um médico a remover um câncer está empenhado em uma caça às bruxas", disse Michael Voris da RealCatholicTV.com e St. Michael’s Media. "Estamos apenas apontando o holofote para as pessoas que são católicas e que não vivem a fé."

John Allen, analista do Vaticano para o National Catholic Reporter, apelidou esta tendência "catolicismo Talibã". Mas ele diz que não é um fenômeno estritamente conservador - os progressistas podem se enquadrar nessa mentalidade também, diz Allen. Alguns católicos de esquerda ficam indignados com qualquer exercício de autoridade da igreja.

No entanto, na Internet e na igreja, os conservadores estão tendo o maior impacto.

Entre os muitos empreendimentos de mídia de Voris está a CIA - a Agência Católica de Investigação - um programa da RealCatholicTV para "trazer à luz as façanhas ocultas de católicos-em-nome-somente, que estão seqüestrando a Igreja para seus próprios fins, não os fins de Cristo".

Em um episódio chamado "Catholic Tea Party", Voris disse: "Os católicos devem estar conscientes e estudar e conhecer o suficiente sobre a fé para reconhecer uma freira herege ou um sacerdote ou bispo traidor quando dão de cara com um deles - não para que possam pedir a expulsão deles, mas para que possam rezar por eles, e alertar, o máximo possível de católicos sobre suas traições."

O blog "Bryan Hehir Exposed" destina-se a um conselheiro do cardeal Sean O'Malley de Boston, o Rev. J. Bryan Hehir, que é o ex-chefe da National Catholic Charities e professor da Universidade de Harvard Kennedy School of Government. Entre as afirmações dos blogueiros está a de que Hehir é um simpatizante do marxismo, que assola a doutrina católica sobre o aborto e o casamento.

Hehir, que aconselha líderes da igreja por quatro décadas, não respondeu a nenhuma das acusações e nem o bispo O'Malley, um frade franciscano capuchinho conhecido por sua humildade. No entanto, disse O'Malley em abril em seu próprio blog que Hehir "inspira-nos com sua compaixão, visão e fidelidade à obra da Igreja." Em agosto, O'Malley bloqueou o acesso `a da sede da arquidiocese por parte de um dos blogs que fazem críticas, o anônimo Boston Catholic Insider.

"A falta de civilidade, é muito preocupante", disse Terrence C. Donilon, o porta-voz da arquidiocese.
Os trabalhos da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA é outro alvo frequente.

Ativistas e blogueiros, incluindo Ministério Belarmino Veritas do Texas, estão investigando a Campanha para o Desenvolvimento Humano dos bispos católicos, um programa de doação nacional criado em 1970 para apoiar a organização comunitária e o desenvolvimento econômico.

Os ativistas concluiram que alguns dos beneficiados apoiam casamento entre pessoas do mesmo sexo, contracepção artificial ou o direito ao aborto. Como parte dos trabalhos, os ativistas acusaram o diretor da Pastoral Nacional dos Bispos para Justiça Social de servir no comitê de uma ONG, enquanto ela defendia o casamento gay e o aborto. As acusações contra ele foram consideradas improcedente.

Ainda assim, os blogueiros tiveram um impacto.

O bispo que fiscaliza os fundos de combate à pobreza, disse que alguns, mas não todos, dos benficiários acusados tinham realmente tomado posições contrárias aos ensinamentos da igreja e deixaram de receber o benefício. Desde que a polêmica surgiu, em 10 das 195 dioceses dos EUA tiveram queda anual de doações ou suspenderam a coleta para o programa, e os bispos estão revendo suas políticas de concessão.

Thomas Peters, que dirige o popular blog "AmericanPapist", disse que os católicos ortodoxos adotaram a Web porque eles sentem que finalmente possuem uma plataforma que pode competir com publicações católicas progressistas bem estabelecidas, como o National Catholic Reporter. (Alguns blogueiros conservadores chamam o jornal "National Catholic Destroyer".)

Peters, 25, considera-se no lado mais positivo da blogosfera católica ortodoxa, apesar de alguns de seus alvos discordarem.

Ele condena o veneno que vê online, e promove uma coluna do blog que ele chama de "bishops with backbone", em louvor a líderes da igreja que enfrentam os dissidentes. Ele também acrescentou uma função online para enviar notas de agradecimento quando os líderes tomam posições difíciels, que recentemente, gerou 500 cartas em um dia para o arcebispo John Nienstedt de St. Paul, Minneapolis, que recusou a Sagrada Comunhão aos manifestantes dos direitos dos homossexuais em uma missa recente.

"Todas essas coisas que dizemos em público são voltadas para o maior bem da igreja", disse Peters. Ele começou seu blog há vários anos e agora trabalha para o American Principles Project, um grupo conservador fundado por Robert George da Princeton University.

O aumento do fervor dos leigos conservadores vem num momento em que a necessidade de ativismo parece menos urgente. A hierarquia nos EUA tem tido uma onda de aposentadorias nos últimos anos que tem varrido os líderes progressistas. Os homens que tomam seus lugares são geralmente mais tradicionais e dispostos a assumir uma linha mais dura contra os católicos desobedientes, desde políticos a paroquianos.

Mas mesmo com estas mudanças, os blogueiros dizem que muitos poucos prelados se pronunciam. Os ativistas dizem também que desde a década de 1970, após as reformas de modernização do Concílio Vaticano II, os liberais têm enchido a burocracia da igreja, escondendo a dissidência dos bispos a que servem.

"Há um velho ditado: Depois que se torna um bispo não há mais más notícias ou uma refeição ruim", disse Carol McKinley, 53, um blogueiro na área de Boston, que chamou seu site "The Tenth Crusade". "Nem um único bispo vai olhar para o todo. Eles gostam de sua ignorância."

Os críticos dos blogueiros alegam que os ativistas são motivados principalmente pela política, não pela teologia. Os blogs apresentam quase tantos ataques ao presidente Barack Obama como aos líderes da igreja. O site de McKinley, até recentemente, era chamado de "Throwthebumsoutin2010" (Throw the bums out in 2010), em antecipação das eleições do meio do mandato.

O falecido Saul Alinsky, o pai da moderna organização comunitária, é também um tema comum nos blogs conservadores católicos. Ativistas reclamam que muitos grupos que recebem subsídios da Campanha Católica para Desenvolvimento Humano usam a tática de Alinsky, um herói da esquerda política e uma preocupação da direita política desde as eleições de 2008. Quando Obama era um organizador comunitário em Chicago, ele trabalhou com pessoas treinadas por Alinsky.

No entanto, os ativistas conservadores católicos insistem que sua fé, especialmente o ensinamento da Igreja sobre o aborto, inspira todo o seu trabalho.

Autoridades católicas estão se esforçando para chegar a um acordo com os blogueiros e organizaram várias conferências mídiaticas recentes sobre o tema, a última foi no Vaticano neste mês. A Conferência Episcopal dos EUA emitiu diretrizes de mídia social em Julho pedindo pela caridade cristã online.

Ainda assim, ninguém espera que a blogosfera católica mude o tom tão cedo. Muitos dos conservadores mais ativos online passram anos tocando as trombetas sobre a dissidência por conta própria em suas dioceses locais sem conseguir muito efeito. Agora, eles sentem que estão finalmente sendo ouvidos online.

"Há um sentimento geral entre muitos fiéis católicos de que não importa o quanto eles escrevam aos bispos, não importa o quanto eles procurem os párocos, todas estas coisas contrárias `a fé continuam sendo ensinadas" disse Voris. "Acho que católicos em suficiente estão dizendo: Chega. Aguentei demais."

© 2010 The Associated Press © 2010 Associated Press